Hoje resolvi contar a história da mordida da macaca. Quando conto esta história todos riem, mas na época fiquei muito tensa.
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Muito bem, um grupo de macacos estava no meio da rua que estávamos passando: duas mães brincando entre si e seus dois filhotes (as duas tinham peitinhos, então deduzi que eram as duas mães). mediatamente, dei a câmera para o Edinho e pedi para ele tirar fotos de mim com os macacos ao fundo. Edinho foi falando: "afasta mais um pouquinho, aproxime-se mais deles"... e eu, empolgada com a possibilidade de uma foto legal perto dos macaquinhos, fui me aproximando, devagarzinho até que agachei a uns dois metros deles.
Qual não foi minha surpresa, quando os dois filhotes viraram seus olhinhos para mim e vieram na minha direção! Senti uma emoção muito forte e fiquei falando para o Edinho "Edinho, tira logo! tira a foto!". Não sei se foi a camisa do Brasil tão amarela (fui confundida com uma banana gigante?), ou a crença de que eu ia dar alguma coisa para eles comerem, mas a verdade é que quando percebi, um deles estava praticamente no meu colo e o outro a ponto de subir.
Nossa, quanta emoção!!! Ficar tão próxima de um animal selvagem no meio do seu habitat!. Como podem ver na foto acima, ele segurou a minha mão! Fiquei tão feliz e tão preocupada com a foto que o Ed tinha que tirar, que não percebi a reação que as mães das crianças tiveram ao ver a cena acima. Elas ficaram com ciúme ou pensaram que eu ia atacar seus filhotes. As duas avançaram em minha direção, com as bocas abertas e os dentes à mostra, e quando eu percebi uma das macacas estava dando um bote em mim! Vi aqueles dentes enormes vindo em direção à minha perna e dei um pulo para trás. Só senti a pancada na perna. Corri chamando pelo Edinho, que estava lá, parado só olhando. A minha reação fez com que elas recuassem. Ao olhar para a perna, imaginei que estaria com uma fratura exposta de tanta dor que sentia. Ficou só um corte com a marca dos dentinhos da maldita e uma bola roxa em volta, já que ela bateu os dentes na minha canela.
Um turista hipocondríaco argentino que estava conosco, viu tudo e correu para chamar nosso guia cambojano. Ele dizia que era melhor irmos para um hospital. O guia veio, perguntou o que tinha ocorrido, olhou o machucado e disse em espanhol: "quando você vai embora?" eu respondi que dali uns três dias. Então ele disse, "melhor você ir a um médico do seu país...aqui não é recomendado" (o Camboja é um país muito pobre e o único "hospital" que vi tinha uma fila enorme na frente e só atendia crianças (os pais as entregavam doentes e ficavam na calçada embaixo do sol de 40 graus esperando)). Achei melhor também e dei graças ao ceus por não ter tido a fratura exposta que eu pensei que tivesse.
Lavei com água mineral e fiquei assim por mais alguns dias, só lavando e sentindo dor até voltar para o Brasil. Assim que cheguei, procurei o Instituto Pasteur na Paulista e o médico que me atendeu disse: "O virus da raiva fica incubado alguns dias antes de se manifestar. Caso ele não tenha se manifestado, a vacina que você tomará pode dar conta do recado (cinco doses durante cinco semanas). Se ele já começou a se manifestar, infelizmente raiva é uma doença que não tem cura e é uma das mortes mais dolorosas que existe, dá caimbra no corpo todo até que o coração pára...". Quase tive um treco! Que médico frio! Nem para fazer uma salinha e me dar a notícia em doses homeopáticas! Assim direto na lata! A minha vida toda e a cena da macaca passaram pela minha mente. Tomei a primeira injeção e comecei a rezar para que a maldita que me mordeu não tivesse raiva. Passei essas cinco semanas neurótica. A única coisa que me confortava era que eu sabia que os cambojanos comiam aqueles macacos, então talvez eles não tivessem raiva (pois se tivessem, acredito que o povo não comeria, certo?)
O machucado demorou muito para cicatrizar e o roxo para desaparecer. A cada injeção eu tinha mais certeza de que não tinha me infectado com raiva, mas a qualquer sinal de caimbra na perna meu coração pulava...Bem, hoje estou aqui podendo contar esta história. Esta que me deixou com um certo trauma de macacos...e que me fez talvez deixar de querer chegar tão perto de animais selvagens. Já imaginou se isso tivesse acontecido com os animais abaixo?


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