Como em muitos aeroportos internacionais, uma fila única levava a vários guichês onde se encontravam policiais vitnamitas, com caras nada amistosas, vestidos com aqueles uniformes verdes com detalhes em vermelho que lembram soldados na guerra. 

As duas argentinas se dirigiram a dois guichês e eu a outro (Edinho permaneceu na fila). Fazendo cara de simpática, com um sorriso de miss, entreguei meu passaporte ao policial, que sentado olhava com cara de poucos amigos. Ele olhou a página com o visto, buscou a foto do passaporte e começou a olhar para minha cara. Olhava para a foto e para mim, foto, Maggie, foto, Maggie, como aquele cara da TV que fazia "cara crachá, cara crachá". Na hora, gelei...Muito mais tempo do que as argentinas tinham levado para serem liberadas...Quando ele me disse algo impronunciável que parecia uma pergunta em vietnamita, comecei a tremer...eu dizia em inglês "I don´t understand" e ele continuava falando no idioma deles...Falou então em um inglês macarronico "you, japan" e eu disse "no, brazil". Ele apontava minha cara e resmungava coisas como ..."voce é japonesa, tem olhos puxados". Olhei para trás, procurando o Edinho na fila, e ele já estava em outro guichê. Pelo visto, estava tendo o mesmo problema que eu. Lembrei que tinha lido que o Vietã tinha certa mágoa dos japoneses pela invasão na Segunda Guerra Mundial... fiquei pensando se isso seria o problema...
O policial que estava me atendendo, chamou então um outro que parecia o chefe de todos eles (mais alto, gordo, mais velho e imponente). Este outro também ficou fazendo "cara crachá". Ele disse alguma coisa e saíram os dois do guichê. Vixi, nessa hora pensei que fosse ser presa. Chamaram um terceiro, que provavelmente falava inglês e este me perguntou: "O que vieram fazer aqui? Para onde vão?" Comecei então a explicar em inglês (lentamente para que eles pudessem entender) que estava vindo do Laos com as duas argentinas que estavam paradas nos aguardando logo depois dos guichês. Esse policial então disse, "mas elas são argentinas e vocês japoneses?" "como podem estar juntos?" Expliquei que estávamos no mesmo grupo de turismo, que tínhamos ido ao Laos e depois do Vietnã íamos ao Camboja (vejam depois o que aconteceu lá: "Mordida por uma macaca" ). Ele ainda ficou falando "mas você é japonesa, como pode ter passaporte brasileiro?" Nessa hora entendi o que estava ocorrendo...eles achavam que éramos japoneses com passaportes falsos do Brasil...
Comecei então explicar que meus avós eram japoneses e que na época da guerra foram ao Brasil se refugiar... Meus pais tinham nascido no Brasil e eu e o Ed também, nem sabíamos falar japones...tive que explicar que nossos avós fugiram do Japão na guerra e tinham constituído uma família no Brasil. Disse que no Brasil tinha gente do mundo todo. Chineses, japoneses, ingleses, italianos, etc. Não citei vietnamitas porque não me recordo de ter encontrado algum por aqui. Quando o chefe de todos fez um leve movimento com a cabeça, entendi que ele tinha entendido a história...o policial que estava com o Edinho carimbou algo no passaporte, e o meu voltou ao seu posto. Pegou o carimbo e bateu em meu passaporte. Nossa, que alívio...Passei um medão. Naquele momento me passou pela cabeça aqueles filmes de estrangeiros que são presos em países assim por causa de drogas, e são condenados a ficar naquelas cadeias imundas, dependendo de consulados que não podem fazer nada...
Fomos à esteira de malas onde estavam somente as nossas (todos os demais passageiros já tinham se retirado daquela área). Aguardamos o chileno que conseguiu demorar mais para tirar o visto do que nós naquela saga com os policiais vietnamitas.
Hoje, rimos muito desta história...o frio na barriga, o constrangimento, a história de nossa família exposta assim, no meio da Imigração Vietnamita. Fico pensando se não houvesse algum policial lá que falasse inglês...o que teria ocorrido conosco...
Nenhum comentário:
Postar um comentário