sábado, 14 de dezembro de 2013

Uma história de guerreiras: as mães da UTI Neonatal

Ter a Lia com baixo peso, deu-me a oportunidade de conhecer um lado da história da maternidade que muitos nem sequer ouvem falar. Sempre que tratamos deste assunto, falamos e ouvimos histórias de alegria, mães e filhos recebendo alta em poucos dias, voltando para suas casas juntos. O que vivenciei nos poucos dias em que a Lia esteve na UTI neonatal foi bem diferente.

Para começar, na UTI não é possível ficar 24 horas com o o bebê. Só é possível amamentar de três em três horas, os pais (os homens) podem visitá-los três vezes ao dia em horários diferentes da amamentação, e as mães até podem ficar mais, mas há alguns horários que elas devem sair. Quando chega o horário da amamentação (às 6h, às 9h e assim por diante), vê-se uma fila de mães chegando, higienizando suas mãos e braços para poderem pegar seus filhinhos nas incubadoras. Esta fila não se forma nas madrugadas. São poucas as mães que vão amamentar à meia noite, às três e às seis. Os bebês cujas mães não podem estar presentes nos horários, são amamentados pelas enfermeiras com copinhos contendo fórmula ou leite materno doado. Durante a estadia na UTI, as mães são orientadas a receber uma aula de "ordenha", pois é possível retirar o leite com bombinhas e encaminhá-lo para doação ou para o seu próprio bebê nos horários em que a mãe não pode estar lá para amamentar. Há todo um ritual de troca de roupa, máscara, touca e higienização das mãos e braços antes da ordenha em si, pois não pode haver qualquer risco de contaminação do leite que será retirado.

Na UTI, há bebês muito pequenos, que nasceram prematuramente com 23 semanas ou mais e pouco mais de 400 gramas, e bebês que nasceram a termo (no tempo certo) mas com algum problema (baixo peso, problema respiratório ou cardíaco, etc). A maioria das mães que passa por ali tem alta hospitalar antes do bebê e é quando a saga começa. Na própria UTI, pude conhecer algumas mães já de alta, que vinham todos os dias de manhã e iam embora à noite, só para amamentar ou ficar com seus bebês. Algumas já estavam nesta rotina há meses, o que me causou muito espanto.

Enquanto a mãe está também internada, há o desconforto de se deslocar de seu quarto para a UTI, que na maioria das vezes fica em andar diferente, e também de ter que ficar em uma cadeira sentada ao lado da incubadora de seu neném, com seu bebê no colo (quando possível) por pouco tempo, mas ainda assim, é muito melhor do que quando se tem alta. Como tive a Lia na terça, dia 13/08 e alta no dia 17, passei por isto alguns dias... Depois da alta, há o momento extremamente triste de sair do hospital sem seu bebê, chegar em casa literalmente de mãos vazias, e passar a noite inteira morrendo de chorar por ter frustrada qualquer expectativa de primeira noite com seu bebê em casa. Todas as mães que conheci passaram por isso e me alertaram que o primeiro dia em casa seria difícil. Comigo não foi diferente...

No primeiro dia depois da alta, dirigi-me ao hospital para dar a primeira mamada às 9hs, e na sequência fui à "sala das mães da UTI", uma sala com TV, chá, biscoitos, sofás, onde as mães aguardam a hora para verem e amamentarem seus bebês. Fui carinhosamente recepcionada por algumas mães que estavam lá (assim como todas as outras que chegaram depois). Elas me explicaram o esquema para solicitar refeições e café da manhã para o dia seguinte e perguntaram o porquê de eu estar lá. Expliquei que a Lia era PIG (pequena para idade gestacional), mas que tinha nascido a termo (dentro do prazo correto). Todas elas me falaram; "Ah, então ela sairá rapidinho!". Quando perguntei quanto tempo elas estavam lá, uma delas disse que fazia 47 dias, outra 55 (o que já me causou espanto), mas que a recordista era uma das mães que estava nesta vida há mais de 90 dias. Ela havia tido gêmeos com 26 semanas de gestação, um deles havia falecido logo nas primeiras semanas na UTI e o outro ainda ficaria lá mais algumas semanas (além dos 90 dias que já estava.

Conversei muito com elas (não se tem muito o que fazer até às 21hs, horário que a maioria vai dar a última mamada do dia e depois vai embora para suas casas. Ou você está com seu bebê na UTI quando pode, ou está ordenhando ou fica lá nesta salinha). Ali, notei como a união e a solidariedade se fazem presentes. Todas entendem o que as demais estão passando, não há distinção de raça, classe social, origem. A luta pela sobrevivência de seus bebês é a mesma. A esperança de que eles tenham alta logo é compartilhada por todas, e o sofrimento que este momento causa também. Ali conheci mães cujos maridos não compreendiam a situação e chegavam a culpá-las pelo que estava ocorrendo; mães desgastadas pelo cansaço da jornada, cientes de que não conseguiriam retornar a seus trabalhos porque a licença maternidade terminaria e seus bebês ainda precisariam delas ali ou em casa; mães vindas de outras cidades, gastando fortunas com estacionamento, flats, locomoção, tudo para ficar próximas de seus bebês. Algumas, mesmo estando ali por dezenas de dias, mantinham ou pelo menos tentavam manter, o alto astral. Conversavam com todas, reconfortavam aquelas mais tristes com palavras de esperança e fé. Outras, estavam ali revoltadas, chorosas, em uma agonia sem fim. As recém chegadas como eu, ainda tentavam entender o que era tudo aquilo. Algumas outras com  mais tempo de casa se despediam, porque seus bebês estavam tendo alta.

Das mães que conheci, quero expor a história de duas delas que me deixaram bastante impressionada:
- uma teve trigêmeos. Um deles teve alta junto com ela e dois ficaram  na UTI para ganhar peso. Passados alguns dias, um dos dois foi para a semi intensiva e o outro menor, ficou na UTI. Admirei  a saga que essa mãe enfrentou: cuidava de um bebê em casa, ia para o hospital de manhã para amamentar o que estava na UTI e o que estava na semi (em horários diferentes é claro) e voltava à noite para casa para cuidar do primeiro. Logo que a Lia foi para a semi, o bebê que estava lá teve alta e o pequeno da UTI foi para a semi. Logo ela estaria em casa com os três (depois que os bebês vão para a semi, normalmente têm alta em dois dias).
- outra mãe que havia tido gêmeos e um deles morrera no parto, foi um dia à sala das mães da UTI para se despedir. Seu outro bebê falecera depois de 26 dias internado. Foi de cortar o coração...Todas as mães se despediram dela, falando que mais um anjinho chegara aos céus e que logo ela seria abençoada com outra gravidez.

Perto das histórias destas mães que conheci, a minha não era nada. No dia que tive alta e voltei sem a Lia para casa, chorei a noite inteira, porém com muito peso na consciência, pois sabia que a Lia sairia de lá em poucos dias. Perto daquelas mães que estavam lá há meses ou que sabiam que iam ainda ficar mais dois ou três meses, a minha situação era incomparável. Mas como elas todas haviam dito, chegar em casa sem seu bebê no colo era muito difícil. Só passando por isso para saber a dor.
Graças a Deus a Lia teve alta no dia 19 e pude me despedir destas guerreiras que conheci. Agradeço muito ter tido esta experiência, sem a qual continuaria vendo a maternidade como um conto de fadas com final feliz. Nem sempre o é, e saber disso me fez crescer muito como pessoa.


 

Nenhum comentário:

Postar um comentário